Sunday, November 25, 2007

A carta

Prezado Chicó,Como tu já o sabes, estou devolvendo a tua irmã junto com esta carta. Eu gostaria de não ter que revelar o motivo de tão grande vexame para as nossas famílias, mas como a situação é das mais sérias, e tu certamente não ficarás conformado com meias explicações, creio que o meu motivo, uma vez exposto, parecerá tão justo quanto desconcertante.

Bom, deixemos de chove-mas-não-molha e tratemos da questão que compete a mim explicar e a ti, aceitar com a resignação somente encontrada em homens de alma nobre. Eis o ocorrido:Sabes tu que o fato de estar casando-me com Dulcinéia fazia-me transbordar de felicidade, uma vez que eu, homem de certas posses e não menos cultura, carecia somente de um xodó para abrandar a minha solidão e espantar de vez o chamado da luxúria vã que já rondava o meu quarto pelas noites afora.

Pois bem, depois de findada a celebração que tu mesmo presenciaste, deixamo-nos levar pela brisa adorável da noite e quando nos demos conta estávamos a nos despir e a nos entregar aos doces sonhos de paixão há tanto alimentados. Contento-me em não comentar nada mais, posto que ademais de tratar-se de tua própria irmã, não encontraria neste que te relata ausência de decoro e escrúpulos tal que permitisse ir além deste ponto. Fato é que esta parte dos acontecimentos foi-nos muito agradável e não suscitou em mim qualquer mínimo desejo de desfazer os laços matrimoniais tão recentemente abençoados. O problema deu-se algumas horas depois, quando exaustos e felizes, nos recostamos para o tão ansiado descanso.

Eis que acordo algum tempo depois. Acordo por conta de um som...
Seria melhor dizer um estrondo, para que tu tenhas a real impressão do susto que tomei ao ouvir tal acorde infernal. De pronto, saltei da cama o mais longe que pude, evitando pisar na criatura responsável por tais barulhos.

Percebendo que o meu intento fora realizado, corri até a luz para aclarar o meu temor. Por pior e mais feio que fosse o bicho, teria que deparar-me com ele, pois qualquer face ou expressão demoníaca é menos assustadora que a nossa imaginação.

Além disso, temia pela segurança de Dulcinéia, meu grande amor, que há tão pouco fora realmente conquistado e não seria arrebatado de mim por aquela besta dos infernos!

Depois de passos aflitos e hesitantes, e segundos que me pareceram longos demais para serem assim denominados, tateei o interruptor, e titubeei, pois agora percebera que o barulho vinha do lado da cama da minha amada. Pensei comigo que não suportaria ver a minha doce Dulcinéia sendo dilacerada por aquela besta maldita. Apesar deste terror súbito, reuni o que restava das minhas forças e acendi a luz.

Alguns instantes se passaram, e enquanto meus olhos se acostumavam à luz eu me indagava como encontraria Dulcinéia, morta? Ferida?

A cena que se desenhou diante dos meus olhos me encheu de alívio, sendo este substituído por um misto de raiva, nojo e desespero. O horrível e estridente barulho vinha da garganta de Dulcinéia, que adormecida em meio à sua baba, vociferava berros que lembravam os rosnados de uma fera raivosa, amplificados ainda pelo fato de ela estar de boca aberta.

Espero que os meus motivos sejam suficientemente fortes para que tu concordes comigo, pois se não os acatas, terei que fugir ao cair da noite. Fato é que não voltarei a deitar-me com esta sebosa que ronca qual uma porca, de boca que cheira como se lhe fosse hábito alimentar-se com o estrume dos cavalos. E tenho dito!

1 comment:

Anonymous said...

para mim, esse chicó gosta de levantar o caneco também