Tuesday, July 05, 2005

Do filósofo espanhol Ortega y Gasset, trecho do “Prólogo para franceses”: "As revoluções, tão incontinentes na sua pressa, hipocritamente generosa, de proclamar direitos têm sempre violado, pisado e rasgado o direito fundamental do homem, que é a própria definição de sua substância: o direito à continuidade. A única diferença radical entre a história humana e a 'história natural' é que aquela nunca pode começar de novo. Kohler e outros demonstraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem por aquilo que, a rigor, chamamos de inteligência, mas porque têm muito menos memória do que nós. Os animais se defrontam a cada manhã com o fato de terem esquecido quase tudo o que viveram no dia anterior, e seu intelecto tem que trabalhar sobre um material mínimo de experiências. Da mesma forma, o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos atrás, porque cada tigre tem que começar de novo a ser tigre, como se nunca tivesse existido outro. O homem, ao contrário, devido a seu poder de lembrar, acumula seu próprio passado, toma posse dele e o aproveita. Nunca é um primeiro homem: desde o início, já existe a partir de um certo nível de passado acumulado. Este é o tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca. E, de todo esse tesouro, a maior riqueza não consiste no que parece certo e digno de ser conservado: o mais importante é a memória dos erros, que nos permite não cometer os mesmos. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro de seus erros, a longa experiência de vida decantada gota a gota durante milênios; Nietzsche define o homem superior como o ser 'da mais longa memória'. Romper a continuidade com o passado, querer começar de novo, é aspirar a plagiar o orangotango."

1 comment:

Anonymous said...

Porra Giu, vê se atualiza mais freqüentemente esse blog...